sexta-feira, 2 de julho de 2010

Etnodicéia


O Direito dos Povos de Ouvir o Evangelho.

Este artigo foi elaborado para apresentar ao leitor a realidade dos povos isolados, com a finalidade de abordar principalmente as necessidades espirituais dessas pessoas. Muitas vezes precisamos ver para crer.

Foi escrito também para refutar o pensamento que defende outra oportunidade para aqueles que morrem sem ouvir o evangelho de Cristo.

Consulte os textos bíblicos abaixo relacionados sobre esse assunto.

Isaías 53:4-5; Jeremias 13:25 e 17:9; João 3:16 e 14:6; Atos 4:12; Romanos 2:12, 3:10-11, 3:23 e 6:23; 2 Tessalonicenses 1:7-9, Hebreus 9:27; I Pedro 4:17 e Apocalipse 20:15

“...cetro de equidade é o cetro dor teu reino." Salmo 45:6

Em face do crescimento do argumento que defende uma forma especial de Deus para resolver o problema espiritual de grupos étnicos isolados, resolvi escrever algo sobre o assunto.

Se fôssemos perguntar a certos grupos indígenas, se eles gostariam de continuar vivendo como estão, possivelmente muitos diriam que gostariam de continuar vivendo onde estão, e não como estão. O povo tribal é muito apegado à terra onde viveram seus antepassados, mormente por motivos culturais.

A antropologia afirma que os povos pré-letrados (tecnologicamente menos desenvolvidos) se identificam muito mais intimamente com o seu mundo do que os povos letrados. O “onde” para muitos grupos étnicos é importantíssimo, mas o “como”é um fator a ser considerado. Por exemplo: Dormir à beira do fogo, cozinhar em cima de pedras, e morrer em decorrência de certas enfermidades que no mundo mais desenvolvido são facilmente controladas, para certos grupos significa coisa do passado.

Convivendo com grupos indígenas diferentes através dos anos, percebi algo em comum entre eles. Todos queriam “as coisas dos civilizados”. Sendo assim, as únicas pessoas que devem decidir se querem ou não continuar vivendo “como estão”, são essas pessoas pertencentes aos grupos ora considerados.

Certa vez um índio se expressou: “quem dorme à beira do fogo somos nós.”

Numa tribo bem primitiva, os índios começaram a roubar biscoitos, enlatados e outras coisas dos missionários. Em muitas tribos a tecnologia do mundo letrado já chegou faz algum tempo.

Conversando certa vez com pastor sobre a obra missionária, destacando especialmente a realidade de um nativo morrer sem ter ouvido o evangelho porque não teve oportunidade, e Por isso , estaria perdido, ele foi enfático: “para que pregar pra eles, Deus dará um jeito pra quem nunca ouviu de Cristo”. Palavras como essas vindas de uma pessoa que diz conhecer a verdade, simplesmente nos deixa perplexos.

Deixá-los como estão em termos físicos, é um assunto muito defendido por profissionais da área de antropologia. Manter o povo indígena na condição em que se encontra, tem sido para muitos, fonte de lucro.. Provavelmente, essas pessoas que vivem nas cidades, não gostariam de trocar de lugar com nenhum deles.

Muitas tribos indígenas estão vivendo numa condição de vida extremamente sofrida. É fato que a realidade é essa em muitas partes do mundo. Por outro lado, muitos grupos indígenas passaram e estão passando por um processo de aculturação, e isso de uma forma paulatina, o que significa integração.

A Bíblia deixa claro que deus não planejou uma vida arredia para o homem. Satanás tem escravizado grupos étnicos por séculos, e se possível, irá mantê-los assim até o final de suas vidas.

Conheci algumas tribos dentro do nosso país vivendo em estágios diferentes de integração. Uma dessas tribos, num estágio que poderíamos chamar de “estágio primordial”, completamente alheia à sociedade nacional. Esse grupo foi o que mais me impressionou. No cotidiano desse povo estava presente a farinha, a bebida forte, a nudez, a rede, a religião as danças, as doenças, etc... É evidente que podemos aprender muitas coisas com eles, nós que vivemos em um mundo mais desenvolvido. Todavia, o que ficou notório, é que na tribo onde a Palavra de Deus chegou, as mudanças foram grandes. De fato aonde o evangelho de Cristo chega, chega para fazer mudanças nas vidas das pessoas. A conversão a Cristo produz mudanças notórias nos hábitos, no comportamento, no linguajar, no asseio corporal etc...

Na realidade não existe cristianismo sem mudanças nas vidas. “Tirar de um poço de lama e perdição” como diz o Salmo 40, envolve tirar o pecador das trevas do pecado, da vida de incredulidade, da indiferença, do comportamento imoral, da falta de amor ao próximo, da idolatria, do vício desenfreado, do adultério. Tudo isso pode ser visto no meio de um povo que vive em total isolamento. É assim que eles estão.

Os índios andam bêbados pela aldeia, espancam suas mulheres, cometem assassinatos dentro do seu próprio grupo, roubam as coisas uns dos outros, mantêm comportamentos homossexuais. Uma índia grávida jogou-se deliberadamente ao chão, por cima do próprio ventre, com o intuito de matar a criança. Eu vi um índio supostamente carregando a alma de uma criança em seus próprios braços. É assim que eles vivem. Contudo, o evangelho tem feito a diferença em muitos grupos isolados.

Deus não dará nenhum jeito no que diz respeito a esperança de vida eterna, perdão de pecados, reconciliação, justificação e regeneração, porque tudo isso já foi consumado no Calvário aproximadamente dois mil anos atrás. Conferir primeira carta de Pedro capítulo três verso dezoito. O preço foi muito alto. A vida de Jesus foi entregue, o que de mais valioso Deus possuía. Os indígenas precisam receber essa noticia, precisam ouvir as Boas Novas do Evangelho que liberta o pecador de muitos enganos e o transforma em nova criatura. È um direito de todos os povos ouvirem essa mensagem.

“Deus dará um jeito para eles”, tem sido um pensamento forte e até predominante em muitos lugares, inclusive, em meios evangélicos. Satanás com seus ardis tem plantado essa mentira na mente de muitas pessoas. Conferir Evangelho de João capítulo oito verso quarenta e quatro.

“Deixá-los como estão que Deus dará um jeito pra eles”, é um pensamento oriundo do inferno e de Satanás, “que não pensa nas coisas de Deus”. (Mt 16:23)

Como povo de Deus, acredito eu, não queremos pensar como Satanás pensa, isto seria uma anomalia para o cristão que “tem a mente de Cristo” (I Cor. 2:16).

Por causa desse pensamento, muitos cristãos não se sentem motivados a se engajarem nessa obra. O resultado para os que nunca ouviram o evangelho é fatal. Muitos já partiram para a eternidade sem ouvir de Cristo, e muitos estão vivendo nessa ignorância com um futuro incerto e obscuro.

Muitas tribos no Brasil vivem sem conhecimento algum da Palavra de Deus, e estão destinadas a continuarem assim, se muitos cristãos continuarem acreditando que “há outro jeito”. Outro jeito seria outro caminho. Deus salva o pecador somente pela fé em Cristo. O único jeito de Deus. (João 14:6 e RM 3:22-23). Só Ele é o Salvador, somente Ele pode resgatar o pecador da condição de perdição em que se encontra.

Estatísticas recentes revelam que noventa tribos brasileiras não foram alcançadas com o evangelho. Isso representa aproximadamente cento e trinta mil indígenas..

Enquanto estou escrevendo sobre esse assunto, fico pensando nos grupos que ainda não foram alcançados com a Palavra de Deus, que vivem sem conhecer o doador da vida, sem saber o que Cristo fez na cruz por eles. Certamente quando chegarem a conhecer a Cristo, não se sentirão satisfeitos em continuar vivendo “como estão”, na idolatria, nos vícios e na imoralidade.

“Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão.” Rm 2:12

Tribos indígenas para muitas pessoas, significa pessoas condenadas ao isolamento, impedidas de conhecerem algo melhor.

Tribo em nossos dias significa miséria espiritual de homens condenados ao silêncio e ao isolamento e a incomunicabilidade.

Isso produz um sentimento de que essas pessoas são tratadas por Deus com certa diferença, de modo especial. Daí o falso conceito soteriológico.

Já ouvi muitas pessoas dizerem: “Deus dará um jeito para aqueles que nunca ouviram o evangelho”. Eles falam isso porque não conhecem o que é viver em uma tribo, não sabem como vivem os nativos. Pensam talvez, que a natureza humana dos índios é diferente das outras pessoas que vivem nas cidades. Esquecem ou não sabem que todas as pessoas procedem de um só casal.

Decidi escrever Etnodicéia com a intenção que Deus use esse artigo para despertar vidas para Cristo e para Sua obra.

O autor é missionário entre os povos indígenas desde 1982.

Por José Vagner Salgado

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL E A URGÊNCIA MISSIONÁRIA

Vivemos em um país com 257 tribos indígenas perfazendo uma população aproximada de 364.000 pessoas. Segundo o pesquisador Paulo Bottrel(1) apenas 4 etnias (Katuena, Mawayana, Wai-Wai e Xereu) possuem a Bíblia completa, 34 dispõem do Novo Testamento e outras 59 contam com porções bíblicas. Entretanto mais de 120 tribos necessitam urgentemente da tradução das Escrituras. Apesar das 25 Agências Missionárias que bravamente atuam entre os índios em nosso país ainda contamos com um vasto campo que necessita do evangelho e 103 grupos permanecem sem presença missionária.
É certo que o desafio vai muito além das estatísticas e das palavras, pois é prefigurada por faces, vidas, histórias e culturas milenares as quais tem sofrido ao longo dos séculos a devassa dos conquistadores, a forte imposição sócioeconômica, etnofagias e perdas culturais.
Em meio a todo este quadro há necessidade gritante de homens e mulheres que se disponham a encarar a transmissão do evangelho valorizando o homem e sua cultura dentro de uma esfera de compreensão lingüística e aplicabilidade social, o que envolve o ultrapassar de várias barreiras. Uma delas é o estudo, registro, preservação, uso e valorização das línguas maternas.


1. O Apelo das Minorias
No contexto sul-americano nosso país possui a maior densidade lingüística e diversidade genética e, paradoxalmente, uma das menores concentrações demográficas por língua falada. As 185 línguas indígenas são distribuídas em 41 famílias, dois troncos e uma variedade desconhecida de línguas isoladas(2). Em meio a esta grande diversidade apenas 3 etnias (Tikuna, Kaingang e Kaiwá) possuem mais de 20.000 pessoas e a média de falantes por língua é de 196 pessoas. 53 povos têm menos de 100 indivíduos e há aqueles com menos de 10 representantes como os Akunsu, com 7 pessoas, os Arua com 6 e os Juma também com 7 indivíduos. Quando pensamos em grupos indígenas nos confrontamos com a realidade de povos minoritários.
Nos anos 80 pesquisadores do Museu Goeldi encontraram os dois últimos falantes do Puruborá. Em 1995 foi identificado um grupo arredio como sendo falante do até então desconhecido Canoê(3) e Pierre Grenand reconhece a existência de 52 grupos ainda sem contato com o mundo exterior cujas línguas não foram estudadas, praticamente todas minoritárias.
O Brasil evangélico não indígena, por sua vez, experimenta desde os anos 80 um rápido crescimento tanto em número de templos como de convertidos, motivo de louvor a Deus. Isto por outro lado têm nos levado a desenvolver uma missiologia mais pragmática, que cultua os resultados, do que Escriturística, que valoriza a Palavra. Assim tanto a expectativa missionária por parte do corpo evangélico nacional quanto à prática no plantio de igrejas valoriza o quantitativo. E isto não será encontrado no universo indígena, pois a conversão de toda uma tribo pode representar, em alguns casos, apenas uma dúzia de pessoas. Precisamos ser relembrados da proposta de Jesus: tornar-se conhecido dentre todos os povos, tribos línguas e nações da terra(4) e isto jamais acontecerá enquanto não alcançarmos os grupos minoritários. Precisamos de uma Igreja apaixonada por Jesus e disposta a gastar bastante tempo e recursos no preparo de seus obreiros a fim de fazer o Evangelho de Cristo conhecido entre todos os povos, também os minoritários.


2. O Apelo da Subsistência Lingüística
Michael Kraus(5) afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. Isto significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde seu poder de comunicação a cada dia. Isto possui raízes diferenciadas que vai desde a imposição socioeconômica nas tribos mais próximas dos vilarejos e povoados até a falta de uma proposta educacional na língua materna, fazendo-os migrar para o português.
Rodrigues(6) estima que, na época da conquista, eram faladas 1273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto delata uma crise sociolingüística no estado de Rondônia onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais usadas pelas crianças e por terem um número pequeno de falantes.
Precisamos perceber que a perda lingüística está associada às perdas culturais irreparáveis como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. Perde-se também a ponte de comunicação para um pleno entendimento do evangelho. No processo de transição, quando a língua materna é perdida, normalmente há o que podemos chamar de ‘geração perdida’, um vácuo cultural que normalmente atinge uma geração inteira. Ou seja, no processo de perda lingüística e migração para o português, os grupos indígenas normalmente passam por um processo de adaptação quando não possuem mais fluência na antiga língua materna e também não aprenderam o suficiente do português para uma comunicação mais profunda, processo que em média dura 30 anos. Este é um momento de perigo onde a identidade indígena é auto-questionada, seus valores perdidos e sobretudo seu poder de comunicação. A presença missionária catalogando, analisando e registrando a língua indígena a valoriza perante seu próprio povo e abre caminho para sua preservação. O Evangelho assim não apenas responde os questionamentos da alma mas contribui para a sobrevivência cultural.


3. O Apelo da Tradução Bíblica
‘Se Deus nos ama, por que Ele não fala a nossa língua ?’
Estas palavras impactaram a mente de William Cameron Townsend quando trabalhava com o povo Cakchiquel da Guatemala desde 1919. Após ser despertado para a necessidade de comunicar o evangelho na língua materna de cada povo ele se dispôs a fundar a SIL (Sociedade Internacional de Lingüística) que atua perseverantemente na tradução das Escrituras. Mas esta não é apenas uma preocupação moderna. Martinho Lutero, reformador protestante, percebeu rapidamente a incapacidade da Igreja conhecer a Deus sem conhecer a Palavra e assim lançou em 1534 a primeira edição da Bíblia por ele traduzida.
A força missionária tem sido ao longo das décadas um divisor de águas na subsistência das línguas indígenas brasileiras sob o esforço da SIL (7) e Missão Novas Tribos do Brasil dentre outras Agências missionárias e atualmente novas organizações como ALEM8 tem liderado o interesse pela tradução bíblica. Boa parte devido aos nossos preciosos irmãos norte-americanos que valorosamente trabalharam e trabalham na análise e grafia lingüística e tradução da Palavra para vários idiomas, como o caso do missionário Robert Hawkins que dedicou 54 anos de sua vida traduzindo a Bíblia completa para a língua Wai-Wai.
O presente apelo é por obreiros brasileiros, com desejo de se esmerarem no estudo lingüístico e se prepararem da melhor forma possível para transmitir o evangelho a mais de 120 línguas no Brasil Indígena.


4. Conclusão
Cerca de 3 anos atrás, quando estávamos integralmente envolvidos com a evangelização dos Konkombas em Gana na África, participei de uma conferência em Chicago onde se reuniam missiólogos e missionários de boa parte do mundo. Muitos temas eram estudados mas sobretudo havia oportunidade para desafios missionários nas preleções da noite. Em minha sessão, falando sobre povos ainda não alcançados, tentei confrontar o auditório com um silogismo bíblico de responsabilidade na comunicação do evangelho dizendo: ‘...em Gana a Igreja fortemente expressiva no sul do país ainda não se despertou para as quase 100 tribos não alcançadas ao norte, dentre elas os Konkombas-Bimonkpeln com os quais trabalhamos. Infelizmente ainda é necessário o envio de missionários estrangeiros para o alcance das tribos ao norte porque a Igreja dorme’.
Na preleção a seguir um norte americano falaria sobre o desenvolvimento de igrejas autóctones. Ele iniciou seu sermão mais ou menos da seguinte forma: “Fui missionário por mais de 20 anos na Amazônia brasileira entre indígenas ainda não alcançados pois apesar da existência de milhões de evangélicos naquele país não havia missionários suficientes. Isto por que a Igreja dorme.”
Senti-me muito constrangido mas reconheci, infelizmente, que suas palavras não estavam tão longe da verdade. É possível mudar.



Notas: 1 Responsável pelo banco de dados da AMTB 2 Segundo Aryon Rodrigues, ‘Línguas Indígenas – 500 anos de descobertas e perdas’ 3 Segundo relato de Pierre e Fraçoise Grenand 4 Apocalipse 5:9 5 Michael Krauss - The world’s languages in crisis’ 6 Idem Nota 2 7 Sociedade Internacional de Lingüística 8 Associação Lingüística Evangélica Brasileira



Ronaldo Lidório - É doutor em Antropologia, missionário da Missão AMEM em parceria com a


Extraído da Revista AMEM, nº 13, 3º Trim/2003. pp.12-14.